Quais fatores afetam o rendimento da fabricação de queijos?
A maior parte dos laticínios, para controlar e quantificar o rendimento da fabricação dos queijos, utilizam o chamado rendimento “litro por quilo”, ou seja, quantos litros de leite foram utilizados para produzir um quilo de queijo. Esse rendimento é econômico e permite que a indústria conheça o custo final da produção. Além dele, também existe o rendimento técnico, o qual é uma análise mais ampla, englobando quesitos como composição do leite e do soro resultante da fabricação. Por meio desse tipo de rendimento é possível estabelecer análises preciosas para a indústria, como comparar as diferentes produções de um mesmo tipo de queijo, ainda que a matéria-prima utilizada apresente parâmetros físico-químicos distintos. Fatores que interferem no rendimento da produção de queijos Diversos fatores podem influenciar no rendimento dos queijos, entre eles: Contagem de células somáticas (CCS) Contagem de microrganismos psicotróficos; Tipo de coagulante utilizado; Composição do leite; Composição do queijo; Perdas no corte. Esses fatores citados acima podem ser divididos em fatores indiretos e diretos. Quais são os fatores indiretos? Entre os fatores indiretos que apresentam relação com o rendimento da produção de queijos, podem ser citados: Contagem de Células Somáticas (CCS) A mastite é uma inflamação da glândula mamária, sendo uma das doenças mais presentes em vacas leiteiras. Nela, os microrganismos infectam o úbere das vacas e atraem leucócitos do sangue, os quais são parcialmente transferidos para o leite, aumentando a CCS. Uma alta CCS pode a levar a produção de enzimas proteolíticas, as quais degradam a caseína. Ao decorrer do processo de coagulação do leite para a produção de queijos, temos a precipitação das micelas de caseína com consequente obtenção do coágulo. Dessa forma, quanto menor for a quantidade de caseínas presentes em virtude da elevada CCS, menor será o rendimento na fabricação de queijos. Contagem de microrganismos psicotróficos As bactérias psicotróficas (gêneros Pseudomonas ou Achromobactes) são microrganismos que podem se desenvolver no leite em baixas temperaturas (inferior a 7° C). Elas são termorresistentes aos tratamentos térmicos aplicados nas indústrias de laticínios e produzem lipases e proteases. As lipases e proteases podem causar uma lenta degradação da caseína e aumento da perda de finos no momento do corte da massa. Além do rendimento, os psicotróficos também exercem influência no sabor do queijo, uma vez que degradam os triglicérides, ocasionando rancidez. Tipo de coagulante utilizado Os queijos são obtidos por meio da coagulação do leite, a qual é feita pela utilização de enzimas coagulantes. Essas enzimas possuem a capacidade de desestabilizar as caseínas pela hidrólise da k-caseína, as quais se juntam formando uma rede tridimensional (gel) que prende as proteínas, gordura, lactose e sais minerais. Por isso, a escolha do coagulante utilizado é fundamental, pois ele promove a formação do coágulo. O coalho mais utilizado é a quimosina, com maior especificidade e rendimento. Quais são os fatores diretos? Podem ser citados como fatores diretos que afetam o rendimento dos queijos: Composição do leite Em relação à composição do leite, os teores de proteína e gordura são os que se relacionam com o rendimento da fabricação de queijos. No caso das proteínas, as caseínas são aquelas que merecem destaque, uma vez que correspondem a fração proteica que coagula e permite a formação do gel como já citado anteriormente. Nessa lógica, quanto maior for o teor de caseína no leite, maior será o rendimento da fabricação, visto que a caseína aumenta em níveis consideráveis a retenção de água no queijo. A gordura, em menor grau, também influencia no rendimento, visto que auxilia na retenção de água, reduzindo a sinérese (expulsão do soro). Dessa forma, é interessante que a padronização do leite para a produção dos queijos seja realizada considerando a relação caseína/gordura. Composição do queijo Quando pensamos na composição do queijo, a umidade é o parâmetro que mais exerce influência no rendimento da produção. Quanto maior for a umidade do queijo, isto é, seu teor de água, maior será o rendimento. Apesar de proporcionar um aumento de rendimento, o teor de umidade precisa ser compatível com as características sensoriais e funcionais dos queijos, além de atender a legislação vigente. Por isso, a Umidade no Extrato Desengordurado (UESD), o qual compreende todos os componentes do leite menos a água e a gordura é um parâmetro que vem sendo constantemente usado pelas indústrias do setor. O teor de umidade absoluto entre dois queijos pode ser igual, porém, ambos podem apresentar UESD diferentes. Isso acontece devido à padronização do leite quando é levado em consideração apenas o teor de gordura. Dessa forma, ocorrem variações negativas no teor de caseína, diminuindo, assim, a relação caseína/gordura. Perdas no corte Os queijos são obtidos a partir da coagulação do leite fluido, formando a massa ou coalhada. Quando essa atinge o ponto ideal, realiza-se o corte da massa, o qual pode ser automatizado (queijomatic’s) ou realizados manualmente em laticínios que utilizam tanques para a fabricação. Ao efetuar o corte da massa, tem-se a perda de soro e de alguns componentes do leite. Porém, essas perdas podem ser reduzidas com um corte adequado da coalhada e uma massa firme, ou seja, que tenha atingido uma coagulação ideal. Nos processos automatizados realizados em queijomatic’s, é essencial que as liras estejam com as lâminas afiadas. Além disso, a rapidez do corte, tamanho dos grãos e intensidade da agitação realizada após o corte são parâmetros que devem ser considerados e bem ajustados para minimizar as perdas. Outros fatores — como a estocagem prolongada do leite cru a baixas temperaturas e a atividade da plasmina — também podem exercer influência no rendimento. A pasteurização do leite, por exemplo, pode aumentar parcialmente o rendimento da fabricação dos queijos, visto que a b-lactoglobulina (desnaturada devido ao tratamento térmico) tem a tendência de agregar-se à k-caseína. Dessa forma, em partes, passa a fazer parte da coalhada, não sendo perdida no soro. Dessa forma, como podemos perceber o rendimento da fabricação de queijos está ligado a diversos fatores, intrínsecos e extrínsecos. Dito isso, é necessário que as indústrias tenham um olhar cuidadoso em todas as etapas de produção, desde a matéria-prima utilizada até os ajustes ideais do processo. Gostou do conteúdo? Deixe seu like e seu comentário, isso nos ajuda a saber que conteúdos são mais interessantes para você. Quer escrever para nós? Clique aqui e veja como! Para ver a matéria completa visite: https://www.milkpoint.com.br/artigos/industria-de-laticinios/quais-fatores-afetam-o-rendimento-na-fabricacao-de-queijos-224962/ Referências: FURTADO, Múcio. Queijos Semiduros. São Paulo: setembro Editora, 2019.
NOVO MODELO DE PRODUÇÃO FAZ PRODUTOR DE LEITE TIRAR FÉRIAS Leia mais em: https://www.comprerural.com/novo-modelo-de-producao-faz-produtor-de-leite-tirar-ferias/
Sazonalidade da produção permite férias anuais a produtores de leite de Xanxerê, no interior de Santa Catarina; modelo contribui para sanidade dos animais também. Um jovem casal de produtores de leite de Xanxerê, no Oeste Catarinense, implantou um sistema de produção que permite algo incomum na atividade: tirar férias anuais. Celis Andressa Gaspareto, de 35 anos, e André Rego, 36, ficaram fascinados pela praticidade do manejo que conheceram em uma propriedade australiana, que permitia a duas pessoas dar conta de 150 vacas em lactação e ainda ficar ausente da propriedade por até 30 dias no ano – algo impensável na bovinocultura leiteira no Brasil, já que a rotina da ordenha é diária por aqui. Além da sazonalidade da produção e de toda a eficiência na mão de obra, os diferenciais do sistema de produção de leite daquele país estão no manejo para um solo fértil, no uso de forrageiras com qualidade nutritiva, na genética animal apropriada, na organização da propriedade e na ênfase no bem-estar animal. “Lá as vacas eram muito saudáveis e era comum ter animais produtivos aos 10 anos de idade. Elas tinham excelente sanidade e produziam um leite de altíssima qualidade. Vimos que era possível produzir leite em uma pequena área, com boa renda e qualidade de vida”, relata Celis. Aliás, a qualidade de vida foi o principal atrativo da atividade que impulsionou a jovem recém-formada em veterinária a retomar a propriedade da família, arrendada desde que ela tinha um ano de vida, quando perdeu o pai. Era lá que Celis queria desenvolver sua atividade profissional e formar uma família. Mas foi do outro lado do mundo que ela conheceu o futuro parceiro de vida e de trabalho, quando estagiaram juntos na mesma propriedade na Austrália: o técnico em agropecuária Andre Rego, natural de Santa Fé do Sul (SP). Ao retornarem ao Brasil, eles se casaram e se tornaram sócios na produção leite. Anos depois a família aumentou com a chegada dos filhos, Valentin de quatro anos e Martín de quase dois anos de idade. Desde 2012, o casal brasileiro está adaptando a propriedade para aderir a todas as práticas vivenciadas na fazenda australiana. Iniciaram sem estrutura alguma e atualmente os dois produtores dão conta de um rebanho de 50 vacas, com produção anual de cerca de 230 mil litros de leite, índices ainda em crescimento. Desde o começo da atividade em Xanxerê, eles contaram com a assistência da Epagri através dos extensionistas do município, Edy Alexandre Bortuluzzi e Dulcinéia Censi, mas a troca de informações com produtores australianos também foi muito importante. Ajuste da produção à qualidade do pasto Uma das práticas adotadas pelo casal foi o ajuste da produção de leite ao ciclo de crescimento do pasto. Na propriedade deles, as vacas iniciam a lactação no outono, finalizando o período de parição em maio. Dessa forma o pico de lactação se dá no inverno e a produção se estende até o verão, quando a pastagem atinge o ápice de crescimento e por consequência a produção de leite tem maior estabilidade. Para que isso aconteça, Celis e Andre promovem a chamada estação de monta, fazendo com que as vacas fiquem prenhas na mesma época. A lactação de todas acontece no mesmo período, permitindo o sucesso do modelo de produção à base de pasto em piquetes rotacionados. Para que o ciclo reprodutivo dos animais aconteça simultaneamente, o cio é induzido por hormônios. A inseminação artificial é feita respeitando o período de dois meses (junho e julho) e por fim ocorre a monta natural para repasse. Após a confirmação de prenhez, em até 60 dias não há mais manejo reprodutivo até a próxima parição. “Se não fizer a estação de monta, no dia sempre tem uma vaca para inseminar, bezerra para alimentar, vaca para secar, outra parindo, e o trabalho é intenso o ano todo. Com a forma que adotamos é possível estratificar o trabalho, que é intenso em quatro meses e rotineiro nos demais oito meses”, diz Celis. Na secagem das vacas, entre fevereiro e março, é o período que possibilita o casal tirar férias. Para isso se faz necessário a contratação de uma única pessoa para vistoriar o rebanho, fazer as trocas de piquete e fornecer sal mineral ou ração pré-parto. Alguns dos destinos do casal são Minas Gerais e São Paulo, onde moram os familiares de André. Na propriedade australiana onde André e Celis estagiaram, antes de serem produtores de leite, os agricultores são produtores de pasto, tratando-o como lavoura, aplicando fertilizantes, irrigação e manejo adequado com pastoreio rotativo. Segundo o engenheiro-agrônomo aposentado da Epagri Airton Spies, esse modelo de produção foi trazido da Nova Zelândia, que prova o sucesso das práticas adotadas ao ser o maior exportador mundial de leite. Ele relata que atualmente 85% do volume produzido naquele país vêm de pasto que as vacas colhem diretamente do campo em pastoreio e 15% vem de volumosos e concentrados processados em forma de feno, silagem ou ração. A implantação do pasto, portanto, foi o primeiro passo dado pelo casal brasileiro. Atualmente eles contam com sete hectares de pastagens irrigadas, divididas em 28 piquetes de 2,5 mil metros quadrados cada. A variedade anual utilizada é a Áries, com sobressemeadura de aveia e trevo no inverno. Cada lote de animais fica em torno de 12 horas em cada piquete. Por recomendação da Epagri, o casal adota o sistema silvipastoril, onde o pasto é sombreado. No referido sistema, as árvores são benéficas para o solo, para a produção e a qualidade da forragem e principalmente para os animais, que têm como principal vantagem o conforto térmico. O desafio desse modelo é a escolha da pastagem adequada, que precisa ser de espécies com adaptação ao sombreamento. Para isso, o casal conta com resultados de pesquisas das Epagri sobre o desempenho de pastagens em sistemas sombreados. As vacas têm literalmente sombra e água fresca. Mas quando necessário, o casal lança mão de pré-secado, que é produzido por eles em cinco hectares arrendados da propriedade vizinha do tio de Celis. Eles explicam que essa alimentação complementar ocorre principalmente quando o inverno é chuvoso e a pastagem não é suficiente. Para isso eles usam um alimentador móvel, que é disposto em uma área de descanso. Outro alimento das vacas é a ração balanceada durante a ordenha, fornecida em alimentador automatizado, que não permite o manuseio pelos agricultores – o que facilita o trabalho e diminui o tempo das vacas na sala. “Aprendemos que as instalações devem estar preparadas para receber os animais e devem ser funcionais”, ressalta Andre. A ordenha das 50 vacas acontece em uma hora em um espaço compacto e funcional com contenção espinha de peixe de seis metros de comprimento, cocho frontal com capacidade para nove vacas de cada lado, e equipado com sistema de extração de ordenha e medição de leite. O contato físico com as vacas é mínimo. “Tudo isso diminui o estresse dos animais e faz com que eles produzam mais leite em menor tempo. Eles entram na sala e sabem que um pasto novinho os espera após a ordenha, em novo piquete”, diz Celis. Genética adequada Spies salienta que no modelo de produção neozelandês, a vaca é considerada uma “máquina” capaz de converter pasto em dinheiro, “colhendo” o pasto e convertendo-o no máximo de sólidos de leite. Mas além de pastagem de qualidade, é preciso contar com raças leiteiras adequadas. Na propriedade do casal de Xanxerê, 90% do rebanho são formados por Jersey e as demais são cruzas de Holandês com Friesian, raça de porte menor e com genética vinda da Nova Zelândia. “A gente usa genética que vem há mais de 100 anos de vacas a pasto, animais que precisam andar muito para pegar o alimento”, diz André. Essas características também são levadas em conta no momento da inseminação artificial. Outra estratégia diferenciada do modelo adotado pelo casal é a padronização do porte das vacas: o peso de cada um é praticamente o mesmo, cerca de 450Kg. “Isso permite que elas recebam a mesma quantidade de ração. Nesse sistema não podemos diferenciar quantidade desse alimento, já que os alimentadores são automatizados. Outro fator é o tamanho da sala de ordenha, que foi projetado para abrigar uma quantidade determinada de animais de determinado tamanho”, explica Andre. Sanidade animal X qualidade do leite O status sanitário do rebanho e o bem-estar dos animais são dois fatores que andam juntos e são fundamentais para o sucesso nesse modelo de produção. Andre ressalta que os problemas sanitários enfrentados por eles são mínimos, pois os animais vivem no campo e se exercitam à vontade, resultando no que denominam de “vacas felizes”. Mas quando a mastite aparece, o controle rigoroso e rápido é fundamental para a manutenção de qualidade do leite. A mastite é uma inflamação nas glândulas mamárias que compromete a saúde dos animais e a qualidade do leite. Segundo Celis, no inverno a propensão para o surgimento da mastite é maior, pois essa estação do ano costuma ser muito fria e chuvosa na região. “Mas o rebanho têm passando bem por esse período, a contagem de células somáticas não aumentou. Na Austrália também tínhamos o problema do barro nas épocas chuvosas, mas percebíamos como as vacas eram resistentes, resultado de todo o manejo realizado”, diz a produtora. A contagem de células somáticas (CCS) é uma ferramenta que indica a saúde da glândula mamária de vacas leiteiras. Vacas sadias possuem valores de CCS de até 200.000 células/mL de leite. Além das perdas na produção de leite, a elevação da CCS contribui de forma negativa também com o aumento dos custos com tratamentos, descarte de leite, alteração na composição do leite (diminuição da gordura, caseína e lactose) e perda da bonificação no pagamento do produto pelos laticínios. Para este controle o casal realiza a coleta de amostra individual de cada vaca, que é enviada ao laboratório mensalmente. Outro fator que impacta na qualidade do leite é a rápida refrigeração após a ordenha. Celis e Andre contam com um resfriador com capacidade para dois mil litros. A qualidade do leite do rebanho permite que eles recebam uma bonificação de 20 centavos a mais pelo litro, pagos por uma cooperativa da região. Como o sistema de produção à base de pasto é de baixo custo, isso resulta em mais lucros na atividade. Gestão da propriedade Desde 2015 as atividades produtivas têm os dados organizados em uma planilha acompanhada pela Epagri, usada para que o casal faça um diagnóstico da propriedade a cada dois anos. Eles usam também um software fornecido pela cooperativa, onde armazenam dados do rebanho, como controle reprodutivo, controle e qualidade do leite, dentre outros. Segundo eles, esse acompanhamento é fundamental para avaliar se a atividade está gerando lucro e quais alterações devem ser feitas para melhorar os resultados. “Tudo auxilia nas tomadas de decisões”, diz Celis. Busca contínua pela eficiência Celis e Andre estão muitos satisfeitos com a atividade e afirmam estar próximos a meta de produção, que é de 275 mil litros de leite por ano. Em 2012, quando começaram, a produção era de 3,5 mil litros mensais e em 2020 chegaram a produzir 28 mil litros em um mês. “Nossa busca é contínua pela eficiência na parte reprodutiva, para alcançarmos menores índices de descarte anual. Também queremos ser muito eficientes na produção de pastagem” ressalta Celis. Mesmo com uma busca contínua por melhorias, André afirma que o casal tem a vida que planejou. “Aqui criamos nossos filhos com qualidade de vida”, diz ele. Uma prática que eles estão introduzindo é a homeopatia, difundida pela Epagri e com excelentes resultados na sanidade do animal, pois é capaz de controlar os principais problemas do rebanho de maneira rápida, eficiente, com menos gastos e de forma sustentável. E sustentabilidade é a palavra de ordem na propriedade: lançar mão de tecnologias para produzir mais com menos recursos, reduzindo a demanda por insumos não renováveis ou intensivos em energia. Como se vê, a propriedade está em constante evolução. “Neste último ano foi melhorado o sistema de ordenha com instalação do conjunto de extração e medição de leite, terceirização na recria de bezerras e novilhas e melhorias na casa de moradia pensando no bem-estar tanto animal quanto da família. Pra mim é um aprendizado trabalhar com a família, pois eles priorizam muito o tempo, além da receptividade que é uma característica da população de nossa região”, diz o extensionista rural da Epagri no município, Edy Alexandre. A opção do casal pela produção de leite é um exemplo de como a atividade em Santa Catarina está rejuvenescendo. Com mais tecnologia, maior produtividade e preço competitivo, a bovinocultura leiteira tem se tornado mais leve e mais lucrativa, atraindo os jovens agricultores catarinenses. Veja matéria na íntegra em:https://www.comprerural.com/novo-modelo-de-producao-faz-produtor-de-leite-tirar-ferias/
O que a NZ pode nos ensinar?
Em alguns aspectos, a Nova Zelândia é muito diferente do Brasil. País pequeno, pouco populoso, clima temperado, raças europeias... Mas temos também algumas semelhanças, como, por exemplo, produzir leite com base em pastagens. E, como os neozelandeses são altamente eficientes na atividade, conhecer um pouco do “quê e como” fazem as coisas, pode nos ser muito útil. Tanto para reavaliação de paradigmas ou para adaptação de ideias e atitudes, para aprendizado e uso de tecnologias e ações que vêm apresentando êxito ou, simplesmente, para nos fazer pensar melhor sobre os caminhos por nós seguidos. O modelo neozelandês A produção de leite no país é principalmente sazonal a pasto e os neozelandeses se orgulham disso. A sazonalidade da produção (10 meses) permite evitar as épocas críticas do clima e da qualidade das pastagens com facilitação de manejo, alimentação e custos. O modelo de produção americano e canadense não é bem aceito; é considerado “modelo de alta produção, mas de baixa lucratividade” e inadequado para as condições econômicas e estruturais do país. A NZ considera possuir uma vantagem diante do resto do mundo, por produzir leite de alta qualidade com custos internacionalmente competitivos. Mas não se acomoda. Está em constante busca de aumento na qualidade e eficiência com redução dos custos. A organização de toda a cadeia produtiva (produção, indústria, comercialização, pesquisa, melhoramento, instituições governamentais, etc.) é controlada pelos produtores comerciais reunidos em cooperativas e empresas. Isto permite grande força, poder e objetividade no sentido de integrar, ordenar e “otimizar” todo o processo, cuidando dos interesses do produtor. Existe sincronia perfeita entre as atividades da produção e da indústria e grande sintonia com os demais integrantes da cadeia leiteira (pesquisa, comércio, governo). A cadeia é competitiva, não existem subsídios governamentais à produção. Entretanto, contam com suporte governamental em setores de organização, pesquisa, fomento e comércio internacional. Com 11.600 rebanhos e 4,2 milhões de vacas, a NZ produz 1,4 milhão de litros com 120 mil quilos de sólidos e exporta 95% desta produção. A participação do agronegócio no PIB do país é em torno de 60% e a da cadeia de lácteos em torno de 25%. O gado utilizado é, na maioria, Holstein-Friesian (Frísia), Jersey e “Kiwi Cross” (um mestiço das raças anteriores sem “grau de sangue” fixado). O tamanho médio dos rebanhos é de 366 vacas em lactação (propriedades médias de 131ha). Os animais consomem pasto (cerca de 4 a 5 toneladas de matéria seca na lactação). Em algumas épocas do ano é feita suplementação (em torno de 15% da nutrição), principalmente com feno de capim, silagem de milho e um subproduto do óleo de coco produzido na Malásia. Não é permitida a aplicação de hormônios nas vacas em lactação. A produção média é 4.000kg de leite por lactação, com 330kg de sólidos e intervalo de partos de um ano. Altas produções são relatadas (15 mil quilos/lactação), mas são consideradas “não rentáveis” para os sistemas de produção por eles utilizados. “Produzimos um animal para nosso sistema e não fabricamos um sistema para nosso animal”, afirmam. O foco atual é no aumento da rentabilidade com aumento na qualidade do leite e redução dos custos, e não no aumento absoluto das produções. O sistema de pagamento do leite remunera a produção de proteína e gordura e penaliza o volume (proteína + gordura – volume). “Não estamos interessados em produzir água branca”, já que o “excesso de água e não de sólidos”, no leite, onera o transporte e a industrialização. A seleção é focada num índice econômico que considera, além da produção de sólidos, aspectos de saúde, adaptação, fertilidade e necessidade de mantença. As avaliações genéticas e a seleção na NZ são geralmente conduzidas dentro dos próprios sistemas comerciais de produção de leite. Assim, os “selecionadores” são também “produtores”. São os grandes conhecedores das necessidades e dos problemas comerciais e dos aspectos práticos e econômicos de fato relevantes à produção e que devem ser objeto de seleção. A grande organização na coleta de dados e a sintonia com as instituições de pesquisa e econômicas, permitem a elaboração de índices de seleção aceitos como adequados e confiáveis e, portanto, aplicados na prática. Como a produção é sazonal, existe estação de monta rígida (cerca de dez semanas). A inseminação artificial é amplamente utilizada, 80% das vacas são inseminadas (a maior parte com sêmen resfriado), mas a TE e a FIV são pouco utilizadas. Em geral, vacas vazias no fim da estação de monta são descartadas. As taxas de descarte são em torno de 20% e, em sua maioria os descartes adicionais são feitos por idade, baixa produção de sólidos e mastite. Assim, em média os animais têm cinco lactações, sendo a primeira em torno de dois anos. O melhoramento genético na NZ O melhoramento leiteiro no país é conduzido, principalmente, por uma empresa de capital aberto, pertencente aos criadores, a “Livestock Improvement Corporation” (LIC), uma das maiores e mais antigas companhias genéticas do mundo, que conta hoje com 12.000 cooperados. Tem uma equipe de mais de 30 cientistas e, além de conduzir avaliações genéticas através de Teste de Progênie e comercialização de sêmen, presta assistência aos fazendeiros, com serviços de manejo, inseminação artificial, DNA, diagnóstico de doenças, etc. Entre os serviços prestados destaca-se o desenvolvimento de um sistema robótico para análise de rotina do leite, fornecendo aos produtores avaliações diárias para gordura, proteína, células somáticas, rendimento, São analisadas dez milhões de amostras de leite por ano e calculada a rentabilidade de cada vaca. Também disponibilizam software de gestão zootécnica, o qual gera 100 milhões de dados a cada ano. O banco de dados da LIC contém registros de 93% dos animais do país. Fornece aos produtores os dados sobre produção e saúde de cada vaca, recomendações e orientações técnicas para tomada de decisões de manejo e seleção e os utilizam nas avaliações genéticas e na pesquisa. A LIC domina mais de 70% do mercado de sêmen da NZ, apesar da competição americana, canadense e europeia, e exporta genética animal para mais de 50 países. Atualmente, três de cada cinco vacas ordenhadas na NZ são servidas por touros do grupo. Investem pesadamente em avaliações genéticas. O Teste de Progênie atualmente inclui diferentes raças e seus cruzamentos (Holstein Friesian, Jersey, Ayrshire e “Kiwi Cross”) sendo, portanto, comparativo: todas as raças num sumário de touros integrado e único. Incluem, também, dados genômicos. Como todas as vacas dos cooperados são controladas pela empresa e como o sistema robótico de análise de qualidade do leite e o software de gestão geram milhões de informações, é possível a obtenção de grande volume de dados de alta qualidade. Adicionando-se uma equipe organizada de cientistas competentes, recursos e infraestrutura regulares, são produzidas avaliações genéticas amplas, confiáveis e de grande aceitação. Os animais são avaliados por um índice econômico “Breeding Worth” (BW), que mede o aproveitamento (lucratividade) no sistema médio do país (pastagem), considerando os custos de alimentação. Este índice é estimado com base no rendimento em sete características: produção de proteína, de gordura, volume de leite (penalizado), peso corporal (penalizado), fertilidade, contagem de células somáticas e longevidade (sobrevivência no rebanho). Fornecem avaliação por outros índices com pesos econômicos distintos. Um para animais em condições superiores de alimentação, “High input index”, que inclui qualidade de úbere entre as características. O índice “Once a day” é estimado especificamente para sistemas com apenas uma ordenha/dia, viável economicamente no país, em algumas situações. São fornecidas avaliações específicas para diversas características visando orientação de acasalamentos e situações especiais (disponibilizando programa para tal) como duração da gestação, peso, úbere, aprumos, etc. e orientação (e programa) para se evitar consanguinidade. Em geral, os produtores escolhem sêmen e dirigem os acasalamentos visando manter tamanho mediano das vacas (em torno de 500kg de peso vivo) e maximizar valor econômico (BW), e não a produção absoluta. Também não se importam muito com o tipo e conformação. “Para permanecer no rebanho, além de produzir adequadamente, basta que a vaca consiga caminhar, comer e ser ordenhada”... Pouca (ou quase nenhuma) atenção é dada a concursos, recordes, demonstrações de “beleza racial” ou mesmo “beleza funcional”. A pesquisa As pesquisas buscam atender a todas as etapas do processo produtivo, desde as pastagens, passando pelo manejo e melhoramento genético e econômico até o processo industrial e comercial. Consideram não apenas o curto prazo, mas o médio e o longo, estando atentas às tendências futuras. Em geral são feitas em parceria com diversas instituições científicas (universidades, institutos, empresas) e entidades de criadores, comércio, governo. Usam as mais modernas técnicas da biotecnologia e enormes bancos de dados (mais de 150 milhões de dados). Buscam identificar e conhecer aspectos que sejam fundamentais para produção com base em pastagens para obter e melhorar animais e produtos requeridos pelo mercado. Atualmente grande foco é dado à qualidade do leite e componentes que a influenciam (K-caseína, alfa-caseína, beta-caseína, tempo de coagulação, tamanho da micela de caseína, lactoferrina, imunoglobulina A, etc.). Estão também engajados na detecção de animais que possuam características “raras” na composição do leite (incluindo reduzido teor de gordura saturada, aumento do teor de gordura Omega-3 e composição proteica melhorada) e animais com reduzida emissão de gás metano. Visam identificar estes genes “raros” de interesse ao país e a alguns mercados específicos para selecioná-los. Esperam, com isso, agregar diferencial (e valor) ao leite neozelandês para atender a certos nichos de mercado. Também são estudados sistemas de monitoramento ambiental para alcançar melhores práticas de gestão com irrigação e garantir lucro e produtividade de forma sustentável, boas práticas de meio ambiente e aspectos para fornecer retorno comercial superior ao custo médio ponderado de capital. Existem muitas pesquisas buscando soluções sustentáveis e econômicas para aumentar quantidade e qualidade das pastagens, tornando-as mais eficientes e capazes de nutrir adequadamente os animais de acordo com as necessidades e em compasso com a curva de lactação, reduzindo a necessidade de suplementação e as fertilizações. O que podemos aprender? Existem diversos aspectos nos trabalhos neozelandeses que, se mais efetivamente trabalhados e aplicados no Brasil, em particular no melhoramento do Zebu e seus cruzamentos, poderiam proporcionar grandes avanços ao melhoramento genético do nosso rebanho e consequentes avanços em toda nossa cadeia produtiva. Um aspecto importante é a constatação de que sistemas de produção de leite com base em pastagens, mesmo que sem “altíssimas produções”, pode ser eficiente, lucrativo e com produtos de altíssima qualidade. Como os neozelandeses sabem usufruir bem de suas vantagens (climáticas, estruturais) e contrapor às deficiências, é possível que lidemos com as nossas. Afinal, temos desvantagens, mas também vantagens inerentes a nosso clima tropical e dimensão do país. O Brasil Central já vem dando sinais de que a produção com gado mestiço zebu-europeu, com base em pastagens e médios insumos, pode atingir patamares de volume e qualidade do leite e também de rentabilidade semelhantes aos obtidos na NZ. Com mais pesquisa, desenvolvimento de tecnologias adequadas, extensão, organização, estruturação da cadeia, tais sistemas poderiam ser mais difundidos e resultados amplos e consistentes poderiam ser obtidos, fazendo nossa produção de leite eficiente e competitiva como a deles. Um exemplo a ser seguido, e que é de grande importância para o sucesso da NZ, é a capacidade de estabelecimento de parcerias bem organizadas entre instituições governamentais, de pesquisa, cooperativas, da indústria e de criadores, na organização de programas de seleção e melhoramento econômico. Desta forma, é possível conduzir os trabalhos abrangendo os interesses de toda a cadeia produtiva e do mercado consumidor, mantendo estáveis os recursos financeiros para o cumprimento dos objetivos programados. Esta estrutura de parcerias muito bem organizadas permite o uso prático de altas tecnologias. Os neozelandeses são, acima de tudo, “práticos”. Trabalham com “pé no chão” e visando a funcionalidade e rentabilidade do sistema. A eficiente aferição de rebanhos comerciais ou em rebanhos puros mantidos em sistemas de produção economicamente viáveis produz dados para elaboração de objetivos econômicos de seleção e avaliações genéticas “realistas” (adequadas aos sistemas comerciais), amplas, únicas em nível nacional (ou até internacional). Não apenas dentro de uma raça, mas até integrando raças distintas. Este tipo de informação é de grande valia para os produtores comerciais, permitindo o uso de material genético melhorado para atender às particularidades de seus sistemas e de seus objetivos. A seleção com base em índices econômicos objetivos (obtidos através de dados econômicos e parâmetros genéticos reais), estimados para os diferentes sistemas de produção e diferentes mercados dos produtos, possibilita avanços gerais e também avanços de nichos de mercado e sistemas específicos. A atenção da pesquisa aos sistemas de produção vigentes no país, sua viabilidade econômica e operacional e também a de sistemas inovadores ou alternativos, tão útil aos neozelandeses, também poderia ser de grande importância para o Brasil. Estudos sobre a viabilidade, em nosso país, de produção de leite sazonal (como na NZ), de sistemas “uma ordenha dia” (já mostrada eficiente na NZ, em algumas situações) e sistemas de dupla aptidão poderiam inovar e melhorar a produção nacional, atendendo a especificidades regionais de nosso país, tão amplo e cheio de particularidades, com ganhos produtivos, econômicos e sociais. O foco, não apenas em aspectos de curto prazo, com pesquisas e estudos econômicos sobre aspectos cujas tendências dos mercados mundiais indicam que terão acentuada importância em médio e longo prazos, são essenciais para a manutenção da eficiência. Afinal, o melhoramento é um processo lento. A estruturação da cadeia e a seleção feita hoje visam produção e mercado futuros. Trabalhamos hoje para produzir os produtos requeridos pelo mercado de amanhã. Quem tiver, “amanhã”, o produto mais adequado, terá maiores ganhos e liquidez. Vale dizer que o mundo, não apenas a NZ, tem apostado em critérios de qualidade do produto e de sustentabilidade econômica e ecológica da produção (e do melhoramento), como exigências mundiais em médio e longo prazos. Finalmente, os neozelandeses nos dão uma lição de vida e trabalho: persistiram no uso de seu sistema de produção, que parecia “ir na contramão” dos preconizados para o mundo, buscaram torná-lo cada vez mais eficiente, através de pesquisas, inovações e tecnologias, sempre considerando a rentabilidade. E hoje, o modelo de produção da NZ tem sido cada vez mais aceito e respeitado no mundo. Suas empresas vêm colocando seus produtos e sua genética em numerosos países, nos cinco continentes, inclusive no Brasil. Até mesmo os EUA têm usado genética da NZ para aumento da fertilidade ou em regiões que exigem maior rusticidade. O Brasil, com o material genético e humano que já dispõe, pode se tornar uma referência tanto na produção e exportação de leite quanto na de material genético para o mundo tropical, talvez até para o mundo todo. O Brasil tem condições privilegiadas e talvez únicas no mundo, para promover o melhoramento leiteiro do Zebu e seus cruzamentos. Seguramente as lições de organização, de visão prática e realista, de trabalho bem feito e de investimento adequado, que podemos ter com a Nova Zelândia, poderão muito nos ajudar a “chegar lá”. Este artigo foi possível, e é resultado, da “Missão Oceania”, promovida pelo Polo de Excelência em Genética Bovina (novembro/2011), com recursos da Fapemig, do Sebrae/MG e da empresa Cenatte Embriões, com o objetivo de prospectar parcerias interinstitucionais, intercâmbio de informações e conhecimentos, geração de tecnologias, identificação de novas linhas de pesquisa e negócios para a cadeia pecuária de Minas Gerais. Agradecimentos especiais à colaboração dos demais membros da “Missão Oceania”: Dr. Cláudio Severino Lara, Dr. Tiago Moreira Carrara e Dra. Melissa Miziara, partícipes da elaboração do “Relatório de Viagem”, de onde foi retirada grande parte das informações contidas neste artigo. Leia publicação original em: https://www.cbmgguzera.com.br/artigosjornalisticos/oqueanovazelandiapodenosensinar.pdf
Melhoramento genético Kiwi: lucratividade define a seleção
O gado leiteiro neozelandês já é conhecido mundialmente pela eficiência em produção de leite a pasto, mas estando aqui na Nova Zelândia e também por ter trabalhado com essa genética no Brasil não é bem isso que se conclui com o gado kiwi. O que se vê são vacas que produzem altos rendimentos de sólidos do leite, longevas, conversoras eficientes de alimento em leite, saudáveis e férteis, fácil para ordenhar e manejar, capazes de caminhar e pastejar longas distâncias todos os dias sem problemas de casco. Quais dessas características não são importantes para uma vaca de leite? Nesse caso o que se conclui é que a vaca neozelandesa tem que ser flex. Produzir tanto a pasto quanto em confinamento. A produtividade média da vaca neozelandesa é de 3883 litros/vaca/255 dias de lactação, ou seja, em torno 15 litros por dia. Lembrando que a produção é estacional devido ao inverno rigoroso impossibilitando a produção fora de free-stall. Para alguns produtores brasileiros acostumados com produções em free-stall de mais de 30 litros/dia a produção parece baixa, mas temos que levar em consideração que é fisiológicamente impossível para a vaca alcançar essa média sob pastejo. Em um free-stall a vaca não anda muito, tem um ambiente climatizado e o alimento está prontamente disponível. Na NZ as vacas precisam colher o seu alimento, caso recebam ração na ordenha sempre será em pequenas quantidades para não atrasar a ordenha, enfrenta uma variação anual de temperatura de -15ºC a 30ºC e ainda existe propriedades que a vaca pode andar até 10km para ordenha. Além disso, os neozelandeses não selecionam a vaca mais produtiva e sim a mais eficiente. E para aniquilar de vez a ideia que a produção por vaca na NZ é baixa veja que a produção média por vaca no sul do Brasil, onde se tem a maior densidade de produção do país é de 2628 litros/vaca/ano (Embrapa gado de Leite, Zoccal,2011). Contudo, a grande maioria das fazendas neozelandesas usa uma grande quantidade de suplementos sem sair do sistema a pasto. Quer seja para segurar maiores lotações com o fornecimento de silagem sobre o pasto ou corrigir a deficiência do pasto com o fornecimento de ração concentrada no cocho durante a ordenha. Portanto, o sistema neozelandês, em grande parte, não é 100% a pasto e, ao contrário do que ouvi de muita gente no Brasil, está longe de ser de baixa produtividade. A produção por hectare média na NZ está em torno de 11319Litros/ha onde a maior produtividade foi na região de Marlborough-Canterbury com 16115Litros/ha e a menor produtividade foi em Northland com 7788Litros/ha (DairyNZ,2011) e ainda assim é maior que média brasileira de 246 litros/ha (SEBRAE,2005). O que o neozelandês busca é o maior rendimento possível. O lucro mesmo. O importante é ganhar dinheiro e a melhor vaca tem que ser a que dá mais dinheiro para o produtor de leite. Parece redundante, mas é bom frisar que o melhoramento genético de uma raça leiteira tem que objetivar o produtor de leite, não o marketing -a empresa leiloeira, a pista de exposição, o “showbusiness”, etc. Cerca de 80 a 90% da receita dos produtores neozelandeses vem do leite e 10 a 20% vem da venda de animais excedentes e descartes. Portanto, “alto mérito genético” de uma vaca kiwi é de acordo com as características citadas anteriormente. O mérito genético, também muito usado em melhoramento genético no Brasil, foi usado na Nova Zelândia entre 1952 e 1997 a partir do índice genético para gordura, proteína e volume de leite por receita total. A partir de 97 foi mudado para “Breeding Worth” (mérito econômico) acrescentando peso, longevidade e algum dos principais custos. O BW atualmente é usado para touros e vacas e mostra a capacidade do animal de gerar lucros incluindo receita total do leite mais receita pela venda de vacas descartes e bezerros, alimento requerido para produção, a alimentação requerida para manutenção e para crescimento, alguns custos de produção e longevidade, medidos em dias de vida. Segundo o Professor Colin Homes em média a vaca nascida em 1985, e com a avaliação TOP foi dado o valor $0,0 e valor médio das vacas em 1998 foi aproximadamente $30. Isto significa que em 1998 uma vaca teve a habilidade genética para gerar $30 a mais de receita líquida por lactação. Em 1998 o touro teve em média um BW de cerca de $90. Portanto em média as novilhas produzidas pelo acasalamento em 1998 teve BW de ($90 + $30)/2 = $60 (citado por,AGUIAR, 2009). Outra ferramenta usada no melhoramento genético neozelandês é o cruzamento do holandês de linhagem neozelandesa chamado de holstein-frisian com o Jersey. O fruto desse cruzamento é chamado de kiwicross. Com isso o kiwi explora o vigor híbrido, ou seja, a superioridade dos filhos em relação aos pais. As vantagens do vigor hibrido não estão inclusos no BW, todavia espera-se um acréscimo de $17 por lactação em novilhas oriundas desse cruzamento (MONTGOMERIE,201_). Veja abaixo uma tabela mostrando o impacto do primeiro cruzamento do Kiwicross. Percentual do melhoramento de desempenho do primeiro cruzamento Holandês x Jersey na Nova Zelândia causadas por vigor híbrido: Característica Impacto do vigor híbrido Gordura + 4.7% Proteína + 4.6% Peso vivo + 2.1% Fertilidade da vaca* + 5.2% Contagem de células somáticas - 4.1% (Favorável) Dias de vida no rebanho + 13.5% *Número de vacas prenhas nos primeiros 42 dias de lactação Fonte: MONTGOMERIE,201_ Atualmente 41% das vacas ordenhadas na NZ são kiwicross (LIC,2011). O trabalho de melhoramento e disseminação da genética neozelandesa é feito pela “Livestock Improvement Corporation” (LIC). A LIC, assim como a Fonterra, é uma cooperativa pertencente aos produtores neozelandeses e domina cerca de 70% do mercado de sêmem da Nova Zelandia. O banco de dados da LIC conta com registros de 93% de todos animais do país além de 81% das produções de sólidos do leite. Para se ter uma idéia do impacto disso com acesso à praticamente todo rebanho neozelandês a LIC faz o teste de progênie com apenas 300 touros por ano filhos de 0,02% de todas vacas que a LIC tem acesso. O teste é feito inseminando esses touros com 100.000 vacas em 550 rebanhos e, assim, são medidas todas as características requeridas do BW nas novilhas frutos dessa inseminação. Depois do teste feito, são selecionados 5% desses touros para ficarem de 3 a 5 anos no time de reprodutores da LIC. Com uma base genética tão grande e uma seleção tão criteriosa, qualquer informação de um touro tem pelo menos 90% de confiabilidade. A fazenda que estamos hospedados é uma das colaboradora da LIC. Todas as vacas tem identificação eletrônica com um chip que comunica direto com o banco de dados da LIC. Em média, o sêmem de touros em teste fica em torno de NZD$17,00/dose com o serviço de inseminação. A inseminação é feita pelo técnico da LIC todos os dias pela manhã e à tarde. O sêmem é diluído a fresco e permanece com o inseminador, sendo separado em códigos. A LIC foi criadora do diluente de sêmem a fresco, contudo exporta mais de 600.000 doses de sêmem congelado para 50 países inclusive o Brasil. Enquanto e LIC usa o seu banco de dados para descobrir os grandes touros o, produtor usa outra ferramenta muito comum na NZ, mesmo antes de começar o teste de progênie, para selecionar suas vacas: o descarte. O produtor não tem apego, como tem muita escala e a reposição é garantida pela recria bem feita, o critério de descarte é muito rígido. Normalmente os motivos de descarte de vacas são: problemas de casco, alta contagem de células somáticas, frequente ocorrência de mastite, vaca com dificuldade de ordenha, quer seja por má conformação de úbere ou por temperamento (essa nem espera o fim da estação para descartar), vacas com problema de fertilidade e baixo BW. Uma ideia de como o descarte é importante, imagine um rebanho de 100 vacas com BW médio de $30 digamos que se descarta 15 vacas por motivos não genéticos e mais 5 com BW zero. Matematicamente seria: 100vacas x BW30 = 3000 subtrai (15vacas x BW30) + (5vacas x BW0)= 450 BW novo rebanho com descarte= (3000-450)/80=31,87 Além disso, deixaria de gastar com as vacas com problema e ganharia uma renda extra com a venda dos animais para o frigorífico. Sem contar o acréscimo no BW médio com as novilhas de BW maior por ser fruto de touros de alto mérito econômico. Com ou sem programas de melhoramento o Kiwi sempre buscou selecionar as suas vacas de acordo com o seu sistema. O melhoramento genético baseado na técnica veio para dar um rumo na seleção e credibilidade no que o produtor neozelandês sempre buscou no seu rebanho: a vaca que dá mais dinheiro. Veja a publicação original em: https://www.milkpoint.com.br/artigos/producao-de-leite/melhoramento-genetico-kiwi-lucratividade-define-a-selecao-205177n.aspx
Qual a influência do marmoreio para a carne de qualidade?
O telespectador Marcos Resende, de Bela Vista, em Mato Grosso do Sul, perguntou em mensagem enviada ao Giro do Boi “qual é a influência do marmoreio em uma carne de qualidade” e “que estudos temos hoje sobre esse assunto”. O programa buscou a doutora em zootecnia e conselheira técnica da Associação de Criadores de Nelore do Brasil (ACNB), Liliane Suguisawa, para esclarecer a dúvida. “Para começo de conversa, marmoreio é a quantidade de gordura entremeada no meio da carne. Os americanos, líderes mundiais de exportação de carne de qualidade, já nós provaram que quando se avança no marmoreio da carne de um rebanho de 1,5%, que é aquele marmoreio impossível de ser visto a olho nu, praticamente inexistente, para 3,5%, […] nós aumentamos muito o sabor, a suculência, a maciez da carne bovina, principalmente quando ela é consumida depois de preparada na grelha, ou seja, como nos nossos churrascos”, contextualizou. “Por garantir diretamente a satisfação ao consumidor, o marmoreio hoje é palavra de vanguarda para os mestres churrasqueiros, para as boutiques de carne especializadas e pelas marcas de qualidade”, frisou. Apesar de ser um trabalho em construção, a disseminação da característica do marmoreio no rebanho brasileiro tem um aliado: a alta herdabilidade da característica entre gerações, conforme destacou Suguisawa. “O lado bom da história é que marmoreio tem uma boa herdabilidade, ou seja, uma alta resposta à seleção genética. Com a tecnologia que fez a transformação do Angus americano disponível no mercado, está ocorrendo no Brasil de maneira complementar ao melhoramento genético de bovinos, além de precocidade, também o melhoramento da carne bovina – inclusive na raça Nelore. Isso significa que em algumas gerações, com muito foco e trabalho, nós vamos conseguir a oferta de carne macia e marmorizada aos nossos consumidores”, projetou a especialista.
Segurança em fertilidade
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